domingo, 3 de maio de 2026

Geppetto

 

De volta aos palcos  e........às poltronas: Geppetto me leva ao teatro

Depois de um sabático sumiço senti novamente as expectativas de ver as cortinas se abrirem e, como tantas outras vezes, segui a velha premissa – ditada por mim: “só se deve ir ao teatro depois de se esvaziar”. É a maneira que encontrei para receber o que vem dos palcos, já que, enquanto uns gostam do que foi apresentado, outros têm impressões não tão agradáveis. Sempre opto por ir e tirar minhas próprias conclusões a partir daquilo que me preencheu, se me preencheu. E, assim, fui assistir Geppetto no último dia 24 de abril. Não vi sinopse, não vasculhei release e não me atentei às criticas já publicadas. Só não consegui me livrar do que sabia sobre um tal Geppetto. Nada além das histórias infantis.

Fui e revivi a gostosa sensação de estar na Sala Miguel Mônico. Senti que o  público precisa ser reconquistado , já que muitas cadeiras estavam vazias. É um árduo trabalho que se tem pela frente. Sinto pelos que não foram e alegro-me por ter ido.

E,  como disse o Pinóquio para o qual fui apresentada, sem que de fato ele dissesse seu nome, ou como disse o Pinóquio que dentro de mim dormia “ a vida é um constante  moldar”.

Nos palcos, Geppetto trouxe várias histórias: a que eu conhecia, a que eu sabia, a que eu não queria saber e a que eu tentei esquecer. Entre encontros e desencontros desnudou Pinóquios e Geppettos e lembrou que ninguém vive feliz para sempre. Não senti o nariz crescer ao dizer para mim mesma que eu não era Pinóquio – quem não é? – e que, ainda que órfã, não perdi tempo/noites/momentos pensando em agradar e ser agradada pelo meu Geppetto.

O espetáculo trouxe um jeito novo de contar a velha história e os muitos percursos que Pinóquios e Geppettos – eu, nós – trilhamos, carregando troncos aleatórios, buscando se unir a árvores, ou delas fazer parte, sem que estas componham florestas e, muitas vezes, trazem desertificação.

A vida e as relações mostradas no sapateado, com seus contrastes de leveza, firmeza, ritmo e técnica. A peça trouxe de forma clara e aguda fantasmas adormecidos, ausências não perdoadas, tentativas vãs de aceitação. Geppetto mostrou que nem sempre o criador cuida da sua criação e esta falha ao tentar protagonizar sua caminhada. O objetivo deixa de ser o eu, e o querer é voltado para o ele. Marionetes Pinóquios. Marionetes Geppettos. E quem, de cima, os manipula? Todos sabem a resposta que, também foi trazida no espetáculo. A manipulação está no interior de cada um, no que comanda e no que se deixa comandar. Faltou resposta para quem foi Geppetto e, em que Pinóquio posso me transformar. Ai quem me dera ser um grilo ou, quiçá, um médico. A consciência versus a manipulação. Mas a vida segue seu curso, independente do eu, ou do ele.

A vida segue seu curso e o tempo mostra sua grandeza.  Uma grandeza nem sempre compreendida, nem sempre aceita, mas sempre absoluta. O tempo traz entendimento, compreensão, justiça. Também traz lembranças e arrependimentos e, alheio aos desejos, também se faz portador de tristeza, carência, desgosto e envelhecimento – do corpo e da alma - . O tempo que muitas vezes nos traz encontros, também nos faz se perder nele. Faz a dependência mudar de lado. Os fios de controle trocam de mãos.

Fábio Cuelli trouxe para os palcos da Sala Miguel Mônico a relação (des-relação) pai e filho, criador-criatura, eu-ele.

O espetáculo terminou e voltei-me para mim mesma, na ânsia de saber do que havia sido preenchida. Em meio a uma constatação trazida no palco, me vi cheia de necessidades . Ao afirmar que tentou ser o melhor Pinóquio possível  o personagem me encheu da necessidade de, de fato, construir relações, dialogar, falar, crescer e trilhar o meu caminho. Necessidade de me encontrar em mim mesma, para que meus cuidados não sejam extensão de ira, ou mera formalidade. Necessidade de ser melhor para mim mesma, porque se o eu não se encontrar, ele se perde no ele, e não há o nós, sem que haja fios controladores.

 

Grupo Máscara EnCena e Fábio Cuelli

Falar sobre técnica, interpretação, presença de palco, direção é coisa para especialistas. Prefiro falar sobre o Pinóquio que o Grupo Máscara EnCena trouxe e que Fábio Cuelli desnudou, através da peça Geppetto.  Certamente muitos se reconheceram e se viram representados no palco. É lógico que , na nossa maestria em egoísmo e vitimismo, nos reconhecemos como Pinóquio e, afastamos a possibilidade de sermos Geppetto, mas será que temos de fato essa isenção ?

Em cena os bonecos  ganharam vida, mostrando justamente o fim dela e, enquanto Geppetto trouxe, em sua fisionomia, a tristeza da alma, Pinóquio mostrou a redenção e o controle. Mostraram o filho que busca um caminho diferente do pai, mas, ao mesmo tempo, não sai de sua trilha.

Sob direção de Liane Venturella o monólogo falou comigo. Ora em português, numa linguagem que eu conheço,  ora em Talian, trazendo uma intimidade que preciso, ora em silêncio, quando a realidade é retratada nos palcos, e ficou claro, em Geppetto,  que a arte imita a vida. Mas a vida também pode imitar a arte.....






 

domingo, 24 de novembro de 2024

Vigiar e .... é ....Punir

 Vigiar ... e....é .... Punir


O ‘pingo’ no ‘e’ faz a diferença. O acento muda as ações e define sentimentos. Vigiar e Punir facilmente traz outra verdade: Vigiar é Punir. Desprovida de vigilância e/ou punição, fui para a apresentação teatral. Impossível não vigiar. Impossível não sentir o desejo de punir ......... mas quem??????? A quem?????
Me recolho à minha insignificância e ao questionamento primário... Cadê o público? A pergunta se dissipa quando são finalizados os três toques.  Agora não há espaço para pensar em quem não veio. É o momento de se abrir para a magia, de ficar pronta para receber ......Receber o quê? Não sei. Somente depois é que, às vezes, tenho essa resposta. Às vezes recebo mais perguntas. Mas perguntando ou respondendo, estou ali, vazia de respostas, vazia de perguntas e pronta ......
No palco a mensagem é clara e vai ao encontro do meu esvaziar.
“Existem outros meios de ver as coisas. Desliguem o cabeção de vocês para entender ...”
Tem gente que ainda não entendeu que o silêncio é um personagem fundamental, mas se não posso punir, nem vou vigiar.
Sinto a força do olhar da boneca Severina e, num deslize me vejo novamente vigiando. O desejo de punição me faz querer tirar o celular da mão da mulher sentada na primeira fila. Fico no desejo e tomo a melhor decisão da noite . Me esvazio do desejo, de mim e, assim, da necessidade de vigiar, da vontade de punir. Decisão irrevogável. Escapo da dança para a força e da morte da velha. Naquela magia, vazia, me sinto ser cheia, paradoxalmente, de mim mesma. Não consigo dissociar o homem do boneco. Um dando vida ao outro. Um vivificando e mortificando o outro.
Começo uma viagem interior por caminhos bem conhecidos e entrecortados por pequenas estações, pontos de parada e partida, lugares de escolhas, pontos de oportunidades de mudança, ou não. Uma briga do eu comigo mesma e com o mundo. Tal qual no palco, brigam, dentro de mim, o santo e o profano.
Ah!!!!!! Focaut. O que mudou? O poder? A disciplina? A punição? A obediência ou a subserviência?
Ou nada mudou?
Difícil não ser sujeito dócil nessa produção vigilante, diante de tantas palmatórias.
Por quem me tomas? Por onde vou?  Para onde vou? Como escapar?
Perguntas, perguntas e perguntas. Sinto que elas começam a transbordar, mas sinto também que ainda não sei respondê-las.
Vigiar e punir. Vigiar ou punir. Vigiar. Punir.
Vou para a escola, ainda que ela esteja distante da Educação? Vou?
O que difere o meu do seu tempo?
Sistema de controle. Regulamentos.
Aí !!!!! Senti na alma a dor da palmatória. A dor que nos faz dar a mão para o que nos resigna, que nos molda, nos taxa,  nos vigia e nos puni.
Enquanto eu ia me enchendo de mim mesma, agora numa viagem que não defini se social ou educacional, no palco “Vigiar e Punir” foi me levando para os tempos, os anos, as marcas, os controles, o normal, o anormal.
Estive em 1950, 1965, 1970, 1981. Estive em todos os tempos. No ontem e no hoje. Acho que passei pelo amanhã.
- Ritalina !! ?
- Presente.
- Pílula da inteligência!!?
- Presente.
- Consumo desenfreado!!?
- Presente.
Sou louca? Sou artista? Sou como aqueles que estão no palco?
Sou a sequela filosofada por Focaut?
Artista. Louco. Vagabundo. Todos somos defeitos colaterais.
Mas acho que, com ou sem defeito, vejo na “Santa” a tirania e me lembro do Auto da Compadecida. O que tem a ver? Tudo. Nada. Não sei.
Viagem maluca que me mostra o que já vivia, e me escancara a higienização social que, logicamente, não veio acompanhada de direito social.
Sentada, completamente envolvida, me libertando fui me vendo aprisionada e aprisionando. Vigiada e vigiando. Punida e punindo. Fui vendo os mecanismos de controle e de punição, embora já os conhecesse e soubesse da força de cada um.
A ‘peste’ foi além de suas mazelas. Foi segregação. Foi vigilância. Foi punição. Foi o ‘pingo’ no ‘e’. Foi o motivo perfeito para punir o pensante, o contrário, o ‘diferente’. Foi a onda que afundou o barco, onde, além de Jonas, ou de Jesus, estavam os comunistas, os vegetarianos, os estudantes de filosofia. Estavam os usuários da Ritalina e os que dela sentiam a abstinência .
Não estava no barco o homem capitalista neo liberal. Mas,  vamos seguir a viagem e, por mais que tente alçar novos voos me vejo aprisionada. Triste descobrir, ou redescobrir que  passarinho que nasce  engaiolado, que dorme engaiolado,  pensa que voar é doença.  
Lembrei-me de Vó Idalina, que partiu em 1989. A vi sentada, próximo ao girau, do lado do galinheiro, cortando as asas daquelas que ‘livres’ tentavam voar. Lembrei-me de Vó Idalina cortando as asas e brigando com as que ousavam tal ato. Era preciso disciplina e está, normaliza a violência. Você quer asas para quê?
O jeito foi seguir viagem entendendo que levo comigo o não saber, o remorso e a culpa. Levo a dor de saber e nada (PODER) fazer. Não mesmo?????
Saber a gente sabe mas, ..... se não é comigo..... Lembrei-me (quantas lembranças) de Todo Mundo, Alguém, Qualquer Um e Ninguém.
Aporto na estação da Família e parece que marquei encontro com  a Igreja, com a Escola e com a Disciplina. Mansamente digo sim, enquanto sufoco o grito do não. Não. Ele não pode ecoar. Na briga do sim com o não, ouço os sussurros de Cassandra. Será que estou louca, por pensar assim......

Confusão?
Foi assim, num misto frenético do tudo com o nada que assisti ao espetáculo Vigiar e Punir, apresentado na Sala Miguel Mônico (Garça) em 12 de setembro de 2024, pela Cia Caravan Maschera.  A escrita acima está confusa? Não sei se esse era o propósito, mas a Cia Caravan Maschera me fez trazer à tona questionamentos amortecidos. Questionamentos que acumulei na minha vida panóptica, onde a culpa e a inocência não se separam. Sou vítima e sou algoz. Com todas as letras, ou com todas as falas, a Cia Caravan Maschera, em Vigiar e Punir, desnudou a minha culpa, o meu ceticismo na família, a minha crença na medicina. Passei pelos séculos 17, 18, 19. Passei (?) pelos poderes de controle. Vi o nascimento de algumas prisões. Aprisionei. Libertei. Senti a impotência de Cassandra. Me calei. Amargurei. Pensei. Me enchi.
No palco os bonecos ganharam vida e, também, mostraram, não de forma leve, mas sem pesar, como os conceitos de punição e vigilância evoluíram.
O espetáculo trouxe a culpa, mas trouxe também poesia, emoção e, porque não dizer, humor. O espetáculo foi o cavalo de troia no combate a minha violência.
 Vigiar e Punir, mostrou a norma e o poder disciplinar.
E, não tão de repente, vigiar é punir.
Fiquei pronta para receber ......
As respostas??????  Não sei se me enchi delas.


OBS: Muito ainda há para se dizer ou escrever ....