sexta-feira, 5 de junho de 2026

Wilson Gonsalez - Homenagem APEG

 Celebrando palavras ......e pessoas: homenagem a Wilson Gonsalez

Em meio a tantos desencontros, marcados por uma polarização política, econômica e social, onde a pauta do dia navega entre bancos, visitas, filmes, influencers , prisões e solturas, 6X1 e 5X2, manobras “alcolumbradas” e, por que não, Copa do Mundo” , a Associação de Poetas e Escritores de Garça - APEG pautou a poesia.

Sem pensar na dosimetria ou cartadas de última hora, no último dia 24 de maio aconteceu o XXIV Encontro Poético, promovido pela Associação e, “celebrando palavras, histórias e o legado da nossa literatura”  (como estava no  convite), Wilson Gonsalez foi o assunto, o motivo, a pauta e o homenageado do dia. Membros da APEG, amigos e familiares trouxeram, na tarde do domingo, um pouco do muito que foi “seu” Wilson Gonsalez.

De sua trajetória na vida, no amor e no campo profissional, para as letras. Um pouco mais do homenageado veio à tona.

E, num encontro onde as palavras transformadas em crônicas e poesia foram pano de fundo, certamente se fez presente a emoção.

Antônio Augusto Ávila Castro ou simplesmente "Tonhô" relembrou a caminhada do cronista excepcional, segundo suas palavras. Wilson Gonsalez colaborou, por mais de quatro décadas, com o Jornal Comarca de Garça do qual Tonhô era proprietário e editor, mas a amizade e o entrosamento de ambos iam além das páginas jornalísticas. Algo iniciado na década de 60, quando o filho de Dona Amélia e Seu Chico ainda trabalhava no Banco Brasileiro de Desconto.

“Ele era fã da Folha de São Paulo. Era um cronista excepcional. Sabia como narrar fatos, falar sobre pessoas”, disse Tonhô lembrando e trazendo aos presentes a saga de Wilson Gonsalez para publicar seu primeiro livro. Isso na década de 70, quando Assis Bosquê era o chefe do executivo garcense.

“O Wilson queria lançar o livro. Ele foi até minha casa pedindo para que, juntos, fossemos à casa do prefeito. Num sábado fomos e o Assis Bosquê nos recebeu, até surpreso. O Wilson falou sobre o livro”.

A saga do cronista provocou um fato inédito em Garça: o pré-lançamento de seu livro, uma coletânea do muito que já tinha saído nas páginas do Jornal Comarca de Garça.

“Na época eu já trabalhava na Câmara Municipal de Garça, cujo presidente era o José Carlos de Oliveira Lima (1977-1978). Fizemos lá o pré-lançamento de “O Homem e o Julgamento”. Ele reuniu várias crônicas já publicadas e aconteceu ali a Noite de Autógrafos, que foi um sucesso. Algo que nunca tinha sido feito. Foi inédito”, falou Tonhô, comentando ainda que Wilson se entusiasmou para novas obras, e passou a escrever crônicas específicas para os livros que publicaria, além de manter o envio de textos para a publicação no Jornal Comarca de Garça.

Lembranças vêm à tona, fatos são revelados e a emoção aflora. A fala de Tonhô ficou entrecortada e os olhos marejaram ao lembrar a homenagem que o cronista amigo lhe prestou.

Ano de 1985, celebração de 50 anos de fundação do Jornal Comarca de Garça e Tonhô, que não estava mais atuando no periódico, foi convidado a ajudar na publicação de uma edição especial.

“O Wilson viu a edição e que não havia nada sobre mim. Eu ajudei a fazer e não ia colocar algo sobre mim. Na edição seguinte, ao pegar o jornal, me deparei com essa homenagem”, falou Tonhô mostrando o recorte da crônica “Um abraço Tonhô”, momento em que a fala foi silenciada. O recorte, guardado com carinho e zelo nesses 41 anos, foi mostrado aos presentes e, ao retomar a fala, Tonhô enfatizou que Wilson Gonsalez tinha facilidade em escrever.

“Tenho gratidão por ter convivido com essas pessoas ilustres que muito nos ensinaram”, finalizou ele.

Fagner Roberto Sitta, presidente da APEG, aproveitou o momento para agradecer a força e o apoio que o Jornal Comarca de Garça deu, durante os anos de  2005 a 2018, à Associação, abrindo espaço para divulgação de encontros, publicações e demais trabalhos realizados pelos membros. Sitta lembrou ainda que os saraus são uma forma de os escritores apresentarem e divulgarem seus trabalhos.

E cada um, membros da APEG ou não, encontrou um jeito de homenagear Wilson Gonsalez. Ligia da Costa falou sobre ele e presenteou os presentes com a “Poesia ao Trabalhador da Roça”. Luiz Idalgo declamou poema “O Amanhã da Paz” que se encontra no livro Caminho da Paz, enquanto Letterio Santoro trouxe o poema “A Praça do Povo”, escrito em 8 de maio de 1999 e que consta no livro Romanceiro de Garça. O poema “As belezas desse mundo” foi declamado por Fagner.

 

O avô-pai inesquecível e amoroso

Emocionada, Cristiane Gonsalez, filha do homenageado, explanou mais sobre a vida do pai. Usou, de forma inédita nos encontros da APEG, o retroprojetor. Imagens de momentos marcantes e familiares foram partilhadas enquanto ela as explicava, contando detalhes da vida do pai. Justificou a ausência da mãe no encontro: Glaucia, a companheira que por 54 anos viveu e partilhou a vida matrimonial com Wilson.

“Tem coisas que o Tonhô trouxe que nem eu sabia. No primeiro livro do meu pai eu tinha 10 anos. Meu pai era extremamente família. Quando tinha festas no banco, a primeira pergunta dele era “pode levar a família?”. Se não pudesse ninguém ia.  O meu filho Vinicius era a paixão da vida dele”, revelou ela.

Enquanto as imagens exibiam o pai, o avô e o esposo em cenas cotidianas, Cristiane desnudava nuances de suas vidas, tais como a adaptação da máquina de escrever para o uso do computador e do e-mail.

“Antes ele escrevia todas as suas crônicas a mão, depois datilografava e, depois, levava ao Jornal. Como o Tonhô disse, eles se viam frequentemente. Quando começou o computador eu disse que ele teria que se adaptar. Foi difícil, mas depois ele se acostumou. Escrevia e já enviava , o que diminuiu as idas ao Jornal”, comentou Cristiane, que, ao finalizar , agradeceu a presença de todos.

Vera, cunhada de Wilson Gonsalez, fez questão de dizer que o tinha, que o via, como um pai, tamanho era o cuidado e o carinho dele recebidos. E foi ela quem revelou duas paixões musicais de Wilson Gonsalez: Clara Nunes e Elis Regina.

E, num encontro da APEG, onde a arte tudo se permite, Elis Regina veio, nas cordas de uma viola e na voz de Luiz Idalgo. Algo inimaginável. Os presentes ouviram A Corujinha (lançada em 1980) e Fascinação (Gravada originalmente em 1976 ). O que a Arte não faz?  A Arte faz e proporciona Arte.

 

Os amigos José Benevides Cavalcante e Luiz Maurício Teck de Barros

Impossibilitado de comparecer ao encontro José Benevides Cavalcante, com quem Wilson Gonsalez também trilhou o caminho da fé, enviou um relato sobre o homenageado. Não falou sobre o amigo que partilhava da mesma fé que a sua. Falou sobre o escritor, a criatividade, os livros, a produtividade.

Produtividade. Produção. Depois apresentar um panorama da evolução sócio, econômica e política de Garça desde 1946 (nascimento de Wilson Gonsalez),  Luiz Maurício Teck de Barros falou sobre a produção e a cronologia literária do homenageado.

“Ele era um observador silencioso. Vale lembrar que queríamos ter feito essa homenagem em vida. Chegamos, eu e Letterio,  a ir na residência do seu Wilson para falar sobre o assunto, mas ele não queria. Fizemos hoje e agradecemos a presença de todos”, finalizou Teck abrindo espaço a quem quisesse se manifestar.

O XXIV Encontro Poético, depois de poesia, entrega de mimos aos familiares do homenageado e poses para os flashes, terminou com bate papo informal entre os presentes.

Célia Izar, Lenita Leão, Maria do Rosário, Caio Celso Nogueira de Almeida, Caique Baron também marcaram presença no encontro.










































































domingo, 3 de maio de 2026

Geppetto

 

De volta aos palcos  e........às poltronas: Geppetto me leva ao teatro

Depois de um sabático sumiço senti novamente as expectativas de ver as cortinas se abrirem e, como tantas outras vezes, segui a velha premissa – ditada por mim: “só se deve ir ao teatro depois de se esvaziar”. É a maneira que encontrei para receber o que vem dos palcos, já que, enquanto uns gostam do que foi apresentado, outros têm impressões não tão agradáveis. Sempre opto por ir e tirar minhas próprias conclusões a partir daquilo que me preencheu, se me preencheu. E, assim, fui assistir Geppetto no último dia 24 de abril. Não vi sinopse, não vasculhei release e não me atentei às criticas já publicadas. Só não consegui me livrar do que sabia sobre um tal Geppetto. Nada além das histórias infantis.

Fui e revivi a gostosa sensação de estar na Sala Miguel Mônico. Senti que o  público precisa ser reconquistado , já que muitas cadeiras estavam vazias. É um árduo trabalho que se tem pela frente. Sinto pelos que não foram e alegro-me por ter ido.

E,  como disse o Pinóquio para o qual fui apresentada, sem que de fato ele dissesse seu nome, ou como disse o Pinóquio que dentro de mim dormia “ a vida é um constante  moldar”.

Nos palcos, Geppetto trouxe várias histórias: a que eu conhecia, a que eu sabia, a que eu não queria saber e a que eu tentei esquecer. Entre encontros e desencontros desnudou Pinóquios e Geppettos e lembrou que ninguém vive feliz para sempre. Não senti o nariz crescer ao dizer para mim mesma que eu não era Pinóquio – quem não é? – e que, ainda que órfã, não perdi tempo/noites/momentos pensando em agradar e ser agradada pelo meu Geppetto.

O espetáculo trouxe um jeito novo de contar a velha história e os muitos percursos que Pinóquios e Geppettos – eu, nós – trilhamos, carregando troncos aleatórios, buscando se unir a árvores, ou delas fazer parte, sem que estas componham florestas e, muitas vezes, trazem desertificação.

A vida e as relações mostradas no sapateado, com seus contrastes de leveza, firmeza, ritmo e técnica. A peça trouxe de forma clara e aguda fantasmas adormecidos, ausências não perdoadas, tentativas vãs de aceitação. Geppetto mostrou que nem sempre o criador cuida da sua criação e esta falha ao tentar protagonizar sua caminhada. O objetivo deixa de ser o eu, e o querer é voltado para o ele. Marionetes Pinóquios. Marionetes Geppettos. E quem, de cima, os manipula? Todos sabem a resposta que, também foi trazida no espetáculo. A manipulação está no interior de cada um, no que comanda e no que se deixa comandar. Faltou resposta para quem foi Geppetto e, em que Pinóquio posso me transformar. Ai quem me dera ser um grilo ou, quiçá, um médico. A consciência versus a manipulação. Mas a vida segue seu curso, independente do eu, ou do ele.

A vida segue seu curso e o tempo mostra sua grandeza.  Uma grandeza nem sempre compreendida, nem sempre aceita, mas sempre absoluta. O tempo traz entendimento, compreensão, justiça. Também traz lembranças e arrependimentos e, alheio aos desejos, também se faz portador de tristeza, carência, desgosto e envelhecimento – do corpo e da alma - . O tempo que muitas vezes nos traz encontros, também nos faz se perder nele. Faz a dependência mudar de lado. Os fios de controle trocam de mãos.

Fábio Cuelli trouxe para os palcos da Sala Miguel Mônico a relação (des-relação) pai e filho, criador-criatura, eu-ele.

O espetáculo terminou e voltei-me para mim mesma, na ânsia de saber do que havia sido preenchida. Em meio a uma constatação trazida no palco, me vi cheia de necessidades . Ao afirmar que tentou ser o melhor Pinóquio possível  o personagem me encheu da necessidade de, de fato, construir relações, dialogar, falar, crescer e trilhar o meu caminho. Necessidade de me encontrar em mim mesma, para que meus cuidados não sejam extensão de ira, ou mera formalidade. Necessidade de ser melhor para mim mesma, porque se o eu não se encontrar, ele se perde no ele, e não há o nós, sem que haja fios controladores.

 

Grupo Máscara EnCena e Fábio Cuelli

Falar sobre técnica, interpretação, presença de palco, direção é coisa para especialistas. Prefiro falar sobre o Pinóquio que o Grupo Máscara EnCena trouxe e que Fábio Cuelli desnudou, através da peça Geppetto.  Certamente muitos se reconheceram e se viram representados no palco. É lógico que , na nossa maestria em egoísmo e vitimismo, nos reconhecemos como Pinóquio e, afastamos a possibilidade de sermos Geppetto, mas será que temos de fato essa isenção ?

Em cena os bonecos  ganharam vida, mostrando justamente o fim dela e, enquanto Geppetto trouxe, em sua fisionomia, a tristeza da alma, Pinóquio mostrou a redenção e o controle. Mostraram o filho que busca um caminho diferente do pai, mas, ao mesmo tempo, não sai de sua trilha.

Sob direção de Liane Venturella o monólogo falou comigo. Ora em português, numa linguagem que eu conheço,  ora em Talian, trazendo uma intimidade que preciso, ora em silêncio, quando a realidade é retratada nos palcos, e ficou claro, em Geppetto,  que a arte imita a vida. Mas a vida também pode imitar a arte.....