De volta aos palcos
e........às poltronas: Geppetto me leva ao teatro
Depois de um sabático sumiço senti novamente as expectativas
de ver as cortinas se abrirem e, como tantas outras vezes, segui a velha
premissa – ditada por mim: “só se deve ir ao teatro depois de se esvaziar”. É a
maneira que encontrei para receber o que vem dos palcos, já que, enquanto uns
gostam do que foi apresentado, outros têm impressões não tão agradáveis. Sempre
opto por ir e tirar minhas próprias conclusões a partir daquilo que me
preencheu, se me preencheu. E, assim, fui assistir Geppetto no último dia 24 de
abril. Não vi sinopse, não vasculhei release e não me atentei às criticas já
publicadas. Só não consegui me livrar do que sabia sobre um tal Geppetto. Nada
além das histórias infantis.
Fui e revivi a gostosa sensação de estar na Sala Miguel
Mônico. Senti que o público precisa ser
reconquistado , já que muitas cadeiras estavam vazias. É um árduo trabalho que
se tem pela frente. Sinto pelos que não foram e alegro-me por ter ido.
E, como disse o
Pinóquio para o qual fui apresentada, sem que de fato ele dissesse seu nome, ou
como disse o Pinóquio que dentro de mim dormia “ a vida é um constante moldar”.
Nos palcos, Geppetto trouxe várias histórias: a que eu
conhecia, a que eu sabia, a que eu não queria saber e a que eu tentei esquecer.
Entre encontros e desencontros desnudou Pinóquios e Geppettos e lembrou que
ninguém vive feliz para sempre. Não senti o nariz crescer ao dizer para mim
mesma que eu não era Pinóquio – quem não é? – e que, ainda que órfã, não perdi
tempo/noites/momentos pensando em agradar e ser agradada pelo meu Geppetto.
O espetáculo trouxe um jeito novo de contar a velha história
e os muitos percursos que Pinóquios e Geppettos – eu, nós – trilhamos,
carregando troncos aleatórios, buscando se unir a árvores, ou delas fazer
parte, sem que estas componham florestas e, muitas vezes, trazem
desertificação.
A vida e as relações mostradas no sapateado, com seus
contrastes de leveza, firmeza, ritmo e técnica. A peça trouxe de forma clara e
aguda fantasmas adormecidos, ausências não perdoadas, tentativas vãs de
aceitação. Geppetto mostrou que nem sempre o criador cuida da sua criação e
esta falha ao tentar protagonizar sua caminhada. O objetivo deixa de ser o eu,
e o querer é voltado para o ele. Marionetes Pinóquios. Marionetes Geppettos. E
quem, de cima, os manipula? Todos sabem a resposta que, também foi trazida no
espetáculo. A manipulação está no interior de cada um, no que comanda e no que
se deixa comandar. Faltou resposta para quem foi Geppetto e, em que Pinóquio
posso me transformar. Ai quem me dera ser um grilo ou, quiçá, um médico. A
consciência versus a manipulação. Mas a vida segue seu curso, independente do
eu, ou do ele.
A vida segue seu curso e o tempo mostra sua grandeza. Uma grandeza nem sempre compreendida, nem
sempre aceita, mas sempre absoluta. O tempo traz entendimento, compreensão,
justiça. Também traz lembranças e arrependimentos e, alheio aos desejos, também
se faz portador de tristeza, carência, desgosto e envelhecimento – do corpo e
da alma - . O tempo que muitas vezes nos traz encontros, também nos faz se
perder nele. Faz a dependência mudar de lado. Os fios de controle trocam de
mãos.
Fábio Cuelli trouxe para os palcos da Sala Miguel Mônico a
relação (des-relação) pai e filho, criador-criatura, eu-ele.
O espetáculo terminou e voltei-me para mim mesma, na ânsia
de saber do que havia sido preenchida. Em meio a uma constatação trazida no
palco, me vi cheia de necessidades . Ao afirmar que tentou ser o melhor
Pinóquio possível o personagem me encheu
da necessidade de, de fato, construir relações, dialogar, falar, crescer e
trilhar o meu caminho. Necessidade de me encontrar em mim mesma, para que meus
cuidados não sejam extensão de ira, ou mera formalidade. Necessidade de ser
melhor para mim mesma, porque se o eu não se encontrar, ele se perde no ele, e
não há o nós, sem que haja fios controladores.
Grupo Máscara EnCena e Fábio Cuelli
Falar sobre técnica, interpretação, presença de palco,
direção é coisa para especialistas. Prefiro falar sobre o Pinóquio que o Grupo
Máscara EnCena trouxe e que Fábio Cuelli desnudou, através da peça Geppetto. Certamente muitos se reconheceram e se viram representados
no palco. É lógico que , na nossa maestria em egoísmo e vitimismo, nos
reconhecemos como Pinóquio e, afastamos a possibilidade de sermos Geppetto, mas
será que temos de fato essa isenção ?
Em cena os bonecos ganharam vida, mostrando justamente o fim dela
e, enquanto Geppetto trouxe, em sua fisionomia, a tristeza da alma, Pinóquio
mostrou a redenção e o controle. Mostraram o filho que busca um caminho
diferente do pai, mas, ao mesmo tempo, não sai de sua trilha.
Sob direção de Liane Venturella o monólogo falou comigo. Ora em português, numa linguagem que eu conheço, ora em Talian, trazendo uma intimidade que preciso, ora em silêncio, quando a realidade é retratada nos palcos, e ficou claro, em Geppetto, que a arte imita a vida. Mas a vida também pode imitar a arte.....
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