Grupo ELAM de Teatro - Marília
Baseado em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o espetáculo é concebido a partir de um processo colaborativo, em que os atores têm autonomia para a criação e a elaboração das cenas. Nos percalços da obra vamos mergulhando na vida do protagonista-narrador e sentindo como a dúvida estremece suas emoções, misturando o real e o imaginário, o passado e o presente.
Aiiii – Machado de Assis!!!!!????. Enquanto o mundo o considera um dos mais importantes escritores, eu procuro um meio de viajar pela sua densidade. A literalidade que nos empurram goela abaixo nos bancos escolares cria impressões difíceis de dissipar. Mas, procurei deixá-las de lado, já que precisava me esvaziar para novamente encher. Precisei fazer escolhas e, escolhi que teria e que veria um Machado de Assis diferente. Tive. Vi. A figura “bruxa” da prima, os fantasmas que muitas vezes nos comandam como marionetes. Nossas lágrimas que às vezes fazem tanto barulho, mas não comovem, não mudam os fatos, não viram o jogo. São apenas sementes que caem em território inóspito. A sensualidade entrou pela porta dos fundos, como tudo que lembra o furtivo, o pecado, o proibido, e no palco a história foi sendo revelada. Abri mão do que há muito tempo li – me esqueci – e me vi perguntando se de fato Bentinho se renderia aos desejos da mãe. Promessas perdidas que fazem sem nos consultar. É o famoso fazer serventias com o chapéu alheio. Minha filha sentenciou “ele vai, mas não fica”. O som suave de Leo Góes conquistou os presentes. A entrada de Capitu, a mesa de escritório no mesmo nível do público, a prostituta tatuada. Gostei. Na adorável discussão com o grupo o tempo mais uma vez foi inimigo. Era preciso que Sérgio Ferrara, Aldo Valentim e Expedito Araújo, somados a Heitor Saraiva falassem ao grupo a leitura feita sobre o trabalho mostrado. Ficamos, posso falar por mim, por Leterio Santoro e por Cido Pereira, com vontade de falar, discutir, ouvir o grupo. E o que diríamos? Que foi bom? Longe de conhecer as dinâmicas teatrais, eu diria que Ferrara foi pontual quando disse que precisam ampliar a obra e seguir a linha lúdica e intimista, apontada em vários momentos do ensaio. Por quê? Porque sou egoísta e assim também posso dizer que gosto de Machado de Assis. Posso entendê-lo melhor. Sinto que posso gostar do Machado de Assis que o teatro me apresentou. Numa reportagem de Augusto Nunes – Revista Veja -, falando sobre o filme “Tancredo, a Travessia”, o jornalista fala que “Tancredo Neves não cabe em 105 minutos”. É isto. Fica então a pergunta: Qual será o espaço que comporta Machado de Assis? Impossível dizer que não gostei. O grupo ELAM mostrou que é possível gostar de Machado de Assis e eu assisti sem fazer cara feia. Sem reclamar de Bentinho, Capitu ou da mãe dele. Sem falar que sendo eu faria tudo diferente.
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