Celebrando palavras ......e pessoas: homenagem a Wilson Gonsalez
Em meio a tantos desencontros, marcados por uma polarização política, econômica e social, onde a pauta do dia navega entre bancos, visitas, filmes, influencers , prisões e solturas, 6X1 e 5X2, manobras “alcolumbradas” e, por que não, Copa do Mundo” , a Associação de Poetas e Escritores de Garça - APEG pautou a poesia.
Sem pensar na dosimetria ou cartadas de última hora, no último dia 24 de maio aconteceu o XXIV Encontro Poético, promovido pela Associação e, “celebrando palavras, histórias e o legado da nossa literatura” (como estava no convite), Wilson Gonsalez foi o assunto, o motivo, a pauta e o homenageado do dia. Membros da APEG, amigos e familiares trouxeram, na tarde do domingo, um pouco do muito que foi “seu” Wilson Gonsalez.
De sua trajetória na vida, no amor e no campo profissional, para as letras. Um pouco mais do homenageado veio à tona.
E, num encontro onde as palavras transformadas em crônicas e poesia foram pano de fundo, certamente se fez presente a emoção.
Antônio Augusto Ávila Castro ou simplesmente "Tonhô" relembrou a caminhada do cronista excepcional, segundo suas palavras. Wilson Gonsalez colaborou, por mais de quatro décadas, com o Jornal Comarca de Garça do qual Tonhô era proprietário e editor, mas a amizade e o entrosamento de ambos iam além das páginas jornalísticas. Algo iniciado na década de 60, quando o filho de Dona Amélia e Seu Chico ainda trabalhava no Banco Brasileiro de Desconto.
“Ele era fã da Folha de São Paulo. Era um cronista excepcional. Sabia como narrar fatos, falar sobre pessoas”, disse Tonhô lembrando e trazendo aos presentes a saga de Wilson Gonsalez para publicar seu primeiro livro. Isso na década de 70, quando Assis Bosquê era o chefe do executivo garcense.
“O Wilson queria lançar o livro. Ele foi até minha casa pedindo para que, juntos, fossemos à casa do prefeito. Num sábado fomos e o Assis Bosquê nos recebeu, até surpreso. O Wilson falou sobre o livro”.
A saga do cronista provocou um fato inédito em Garça: o pré-lançamento de seu livro, uma coletânea do muito que já tinha saído nas páginas do Jornal Comarca de Garça.
“Na época eu já trabalhava na Câmara Municipal de Garça, cujo presidente era o José Carlos de Oliveira Lima (1977-1978). Fizemos lá o pré-lançamento de “O Homem e o Julgamento”. Ele reuniu várias crônicas já publicadas e aconteceu ali a Noite de Autógrafos, que foi um sucesso. Algo que nunca tinha sido feito. Foi inédito”, falou Tonhô, comentando ainda que Wilson se entusiasmou para novas obras, e passou a escrever crônicas específicas para os livros que publicaria, além de manter o envio de textos para a publicação no Jornal Comarca de Garça.
Lembranças vêm à tona, fatos são revelados e a emoção aflora. A fala de Tonhô ficou entrecortada e os olhos marejaram ao lembrar a homenagem que o cronista amigo lhe prestou.
Ano de 1985, celebração de 50 anos de fundação do Jornal Comarca de Garça e Tonhô, que não estava mais atuando no periódico, foi convidado a ajudar na publicação de uma edição especial.
“O Wilson viu a edição e que não havia nada sobre mim. Eu ajudei a fazer e não ia colocar algo sobre mim. Na edição seguinte, ao pegar o jornal, me deparei com essa homenagem”, falou Tonhô mostrando o recorte da crônica “Um abraço Tonhô”, momento em que a fala foi silenciada. O recorte, guardado com carinho e zelo nesses 41 anos, foi mostrado aos presentes e, ao retomar a fala, Tonhô enfatizou que Wilson Gonsalez tinha facilidade em escrever.
“Tenho gratidão por ter convivido com essas pessoas ilustres que muito nos ensinaram”, finalizou ele.
Fagner Roberto Sitta, presidente da APEG, aproveitou o momento para agradecer a força e o apoio que o Jornal Comarca de Garça deu, durante os anos de 2005 a 2018, à Associação, abrindo espaço para divulgação de encontros, publicações e demais trabalhos realizados pelos membros. Sitta lembrou ainda que os saraus são uma forma de os escritores apresentarem e divulgarem seus trabalhos.
E cada um, membros da APEG ou não, encontrou um jeito de homenagear Wilson Gonsalez. Ligia da Costa falou sobre ele e presenteou os presentes com a “Poesia ao Trabalhador da Roça”. Luiz Idalgo declamou poema “O Amanhã da Paz” que se encontra no livro Caminho da Paz, enquanto Letterio Santoro trouxe o poema “A Praça do Povo”, escrito em 8 de maio de 1999 e que consta no livro Romanceiro de Garça. O poema “As belezas desse mundo” foi declamado por Fagner.
O avô-pai inesquecível e amoroso
Emocionada, Cristiane Gonsalez, filha do homenageado, explanou mais sobre a vida do pai. Usou, de forma inédita nos encontros da APEG, o retroprojetor. Imagens de momentos marcantes e familiares foram partilhadas enquanto ela as explicava, contando detalhes da vida do pai. Justificou a ausência da mãe no encontro: Glaucia, a companheira que por 54 anos viveu e partilhou a vida matrimonial com Wilson.
“Tem coisas que o Tonhô trouxe que nem eu sabia. No primeiro livro do meu pai eu tinha 10 anos. Meu pai era extremamente família. Quando tinha festas no banco, a primeira pergunta dele era “pode levar a família?”. Se não pudesse ninguém ia. O meu filho Vinicius era a paixão da vida dele”, revelou ela.
Enquanto as imagens exibiam o pai, o avô e o esposo em cenas cotidianas, Cristiane desnudava nuances de suas vidas, tais como a adaptação da máquina de escrever para o uso do computador e do e-mail.
“Antes ele escrevia todas as suas crônicas a mão, depois datilografava e, depois, levava ao Jornal. Como o Tonhô disse, eles se viam frequentemente. Quando começou o computador eu disse que ele teria que se adaptar. Foi difícil, mas depois ele se acostumou. Escrevia e já enviava , o que diminuiu as idas ao Jornal”, comentou Cristiane, que, ao finalizar , agradeceu a presença de todos.
Vera, cunhada de Wilson Gonsalez, fez questão de dizer que o tinha, que o via, como um pai, tamanho era o cuidado e o carinho dele recebidos. E foi ela quem revelou duas paixões musicais de Wilson Gonsalez: Clara Nunes e Elis Regina.
E, num encontro da APEG, onde a arte tudo se permite, Elis Regina veio, nas cordas de uma viola e na voz de Luiz Idalgo. Algo inimaginável. Os presentes ouviram A Corujinha (lançada em 1980) e Fascinação (Gravada originalmente em 1976 ). O que a Arte não faz? A Arte faz e proporciona Arte.
Os amigos José Benevides Cavalcante e Luiz Maurício Teck de Barros
Impossibilitado de comparecer ao encontro José Benevides Cavalcante, com quem Wilson Gonsalez também trilhou o caminho da fé, enviou um relato sobre o homenageado. Não falou sobre o amigo que partilhava da mesma fé que a sua. Falou sobre o escritor, a criatividade, os livros, a produtividade.
Produtividade. Produção. Depois apresentar um panorama da evolução sócio, econômica e política de Garça desde 1946 (nascimento de Wilson Gonsalez), Luiz Maurício Teck de Barros falou sobre a produção e a cronologia literária do homenageado.
“Ele era um observador silencioso. Vale lembrar que queríamos ter feito essa homenagem em vida. Chegamos, eu e Letterio, a ir na residência do seu Wilson para falar sobre o assunto, mas ele não queria. Fizemos hoje e agradecemos a presença de todos”, finalizou Teck abrindo espaço a quem quisesse se manifestar.
O XXIV Encontro Poético, depois de poesia, entrega de mimos aos familiares do homenageado e poses para os flashes, terminou com bate papo informal entre os presentes.
Célia Izar, Lenita Leão, Maria do Rosário, Caio Celso Nogueira de Almeida, Caique Baron também marcaram presença no encontro.
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